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Atualizado em 29 de agosto de 2025
Foto: O2Corre
Neste Artigo
Ainda hoje, muitas pessoas acreditam que atletas são símbolos de completa saúde. Entretanto, já é sabido que isso não é um fato real. Por trás da aparente perfeição, existe um grande abismo de complexidade que pode levar à exaustão física e mental.
Iniciei minha jornada no esporte competitivo aos seis anos na Ginástica Rítmica. Aos 11, migrei dos arcos e das fitas para a pista de atletismo, mais precisamente para os 400 m sobre barreiras. Foi uma identificação tão grande que, quando percebi, já estava treinando de cinco a seis horas por dia, de segunda à sexta, além das competições nacionais e internacionais aos finais de semana. Treinos e, principalmente, competições que me levavam praticamente ao desmaio, tamanha a intensidade do esforço despendido.
Por conta de tal intensidade, minha vida de atleta foi encerrada aos 21 anos em decorrência de uma lesão no joelho.
A linha entre o saudável e o extenuante é muito tênue e, algumas vezes, ao visar o pódio, esta linha é ultrapassada sem nem mesmo ser percebida, podendo levar à uma lesão física ou até mesmo a um transtorno mental. Entretanto, é justamente o esporte de alto rendimento que norteia e fornece diversas ferramentas aos atletas para que estes adquiram hábitos saudáveis quanto ao sono, alimentação, gerenciamento de estresse. A questão está na dose que tanto pode salvar vidas, quanto tornar-se veneno. Principalmente se a dosagem estiver vinculada à pressão por resultados e expectativas internas e externas, de patrocinadores e familiares.
Felizmente, tive um técnico que foi mais que um treinador, foi um grande mentor. Ensinou-me a dizer NÃO aos excessos. Mostrou-me, entre tantos outros ensinamentos, que nosso corpo é como uma orquestra e que cada um dos instrumentos (sono, alimentação, regularidade) precisa de um maestro competente.
Além do mais, tive a sorte de treinar em um centro de pesquisa no qual os atletas eram frequentemente monitorados por meio de exames clínicos, físicos e analisados por um grupo interdisciplinar coeso. Ou seja, desde muito cedo vivencio e percebo a importância de tal suporte. Era tão essencial, que sentia diferença não somente durante os campeonatos, mas principalmente no meu dia a dia, no auxílio da criação e manutenção dos hábitos de vida, além do suporte psicológico que mantinha minha mente saudável.
Com o tempo, e após a lesão no joelho, as competições ficaram para trás, mas o aprendizado e a paixão pelo movimento permaneceram. Troquei a pista pelo hospital e pelos atendimentos “realmente” personalizados. Mergulhei de cabeça na fisiologia do exercício: tornei-me personal trainer nacional e internacional para grupos especiais, fui selecionada para receber uma bolsa de estudos no Japão e, mais recentemente, concluí uma especialização multidisciplinar em saúde mental e psiquiatria.
A vida dá tantas voltas que, de repente, me vi escrevendo um dos capítulos do livro “Medicina do Estilo de Vida – evidências e práticas para a saúde física e mental”, no qual, juntamente ao Dr Arthur Danila, uma sumidade na psiquiatria e na Medicina do Estilo de Vida, escrevemos sobre o desfecho do comportamento inativo na saúde ao lado de mais de 120 autores. Quem diria que a atleta dos 400 m sobre barreiras um dia estaria escrevendo sobre a importância de andar, escolher as escadas em detrimento do elevador, dar banho no cachorro… contando tudo isso como sendo atividade física que beneficia corpo e mente dos praticantes?
Atualmente sou colaboradora do Programa de Mudança de Hábitos e Estilo de Vida (PROMEV) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e do protocolo de Atividade Física e, como profissional da saúde, o que mais me move é a sabedoria que recebi nas pistas: o verdadeiro prêmio não está na medalha, mas sim na saúde em decorrência de uma vida equilibrada e com hábitos saudáveis.
Referências:
1- Noetel M, Sanders T, Gallardo-Gómez D, Taylor P, Del Pozo Cruz B, Van den Hoek D, et al. Effect of exercise for depression: systematic review network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ. 2024; e075847.
2- Ritti-Dias R, Trape AA, Farah BQ, Petreça DR, Lemos EC de, Carvalho FFB de, et al. Atividade física para adultos: Guia de Atividade Física para a População Brasileira. Rev Bras Ativ Fis Saúde. 2021; 26:1-11.
3- Hallal PC, Lee IM, Sarmiento OL, Powell KE. The future of physical activity: from Dock individuals tô healthy populations. Int J Epidemiol. 2024; 53(5).
Crédito da imagem: Envato